A carta da condessa

26/07/2016, 08:57

A carta da condessa

Ibarê Dantas

Este livro completa a trilogia que tem como fonte principal as memórias de uma mulher da aristocracia açucareira de Sergipe.

Nos últimos anos do século XX, o amigo Carlos Machado doou-me a cópia de um texto intituladoRecordações de uma vida, atribuído a Aurélia Dias Rollemberg. Li-o com atenção, percebi sua importância, mas como estava envolvido na elaboração de um livro, deixei de lado, à espera de melhores condições para comentá-lo.

Pouco depois, percebi que alguns estudiosos se dedicavam à tarefa de analisá-lo, como indicaram os artigos publicados na imprensa e principalmente a edição, em 2005, do primeiro livro de Samuel Albuquerque, produto de um trabalho criterioso.

O jovem aluno da Universidade Federal de Sergipe (UFS), orientado pela competente professora Terezinha Oliva, identificou o manuscrito original e copiou-o, usando técnicas de ciências auxiliares da História. Em seguida, escreveu introdução narrando a origem e o itinerário do documento, acrescentou apêndices com notas explicativas e publicou o material com o título Memórias de Dona Sinhá.

Dispondo dessa fonte fecunda, Samuel Albuquerque, ao cursar seu doutorado na Universidade Federal da Bahia (UFBA), e já como presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), escolheu como objeto de sua tese as preceptoras, categoria de profissionais que atuaram, sobretudo, até o século XIX como instrutoras e/ou educadoras de moças de famílias abastadas.

Ao partir para a divulgação de sua obra de doutorado, o autor dividiu o trabalho em duas partes leves e interessantes. A primeira, Nas memórias de Aurélia, lançado em 2015, apareceu como seu segundo livro. Nessa publicação, o autor analisou o papel de uma preceptora alemã junto às filhas do Barão da Estância, principalmente quando a família esteve no Rio de Janeiro, acompanhando o patriarca que exercia o mandato de deputado geral. Os detalhes sobre a viagem do Engenho Escurial, em Sergipe, até a capital do Império, o cotidiano dos familiares e dos escravos numa ampla casa do bairro de Botafogo, as visitas, as diversões e o ambiente da corte formam um painel instrutivo e agradável disponível aos leitores.

O terceiro livro da trilogia, A carta da condessa, originalmente primeira parte de sua tese, abrange um universo mais vasto: começa em Paris, vem para Sergipe, passa pela Bahia, atinge o Rio de Janeiro e termina na Europa, sempre com informações interessantes.

A ideia de começar o livro com a carta da Condessa Barral (viúva culta, sofisticada e bem relacionada), ambientar a autora da missiva na Europa e acompanhar o itinerário da mensagem até o destinatário, ao tempo em que prende o leitor, ilustra-o de forma prazerosa.

A carta serviu também para o autor enfrentar, de forma mais direta, o tema das preceptoras em variados aspectos. O translado, o salário, o relacionamento, envolvendo aí, muitas vezes, a barreira da língua, a adaptação ao clima. Tudo se constituía problema nem sempre superável com facilidade pelas senhoras instrutoras estrangeiras.

Para o pesquisador, imagino que a principal dificuldade tenha sido a carência de fontes, pois, não obstante a riqueza das memórias de Aurélia, tratava-se de apenas um caso. Essa limitação foi parcialmente superada com a publicação, em 2008, da biografia escrita por Mary del Priore sobre a Condessa de Barral, preceptora das filhas de D. Pedro II e de Dona Teresa Cristina. Por aí, compreende-se a importância que foi para Samuel Albuquerque a descoberta de uma carta da referida Condessa, em arquivo do IHGSE, enviada a um sergipano, apresentando sugestões sobre a contratação de uma preceptora.

Esse pequeno número de casos, por certo, serviu de desafio para que Samuel Albuquerque exercitasse a sua habilidade em “tirar leite de pedras”, uma figura de linguagem com o sentido de explorar dados escassos. E nesse ponto, seu trabalho é um exemplo eloquente. Ao tempo em que discorria sobre os problemas decorrentes do exercício da profissão, o autor enriqueceu a sua análise ao situá-la na sociedade escravocrata, indicando relações sociais, costumes e valores com sua carga de diferenciações dos ambientes sem cativos.

Para ilustrar as dificuldades de uma europeia acostumada ao clima temperado com as adversidades dos trópicos, Samuel Albuquerque recorreu à vivência de outra alemã, registrada nas cartas de Adolphine Schramm, que acompanhou o marido empresário em Maroim (SE), entre 1858 e 1863. A partir dessa fonte, o autor apontou para a precariedade das estradas, das formas de navegação e o desprovimento dos serviços públicos, sobretudo por ocasião dos surtos de epidemia do Cholera Morbus.

Sem querer antecipar para o leitor as boas surpresas deste livro, escrito com palavras apropriadas, cuidadoso nos procedimentos teórico-metodológicos, em meio a tudo isso, chamou-me atenção a sensibilidade do autor em apontar detalhes significativos que proporcionam concretude e melhor compreensão dos problemas da sociedade escravista e patriarcal.

Por essas dentre tantas outras qualidades, estamos a saudar a chegada de mais uma obra esclarecedora e meritória, enriquecendo a historiografia sobre o século XIX.

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